Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



lfv

A belga

Luis Fernando Verissimo

O escritor ficou surpreso quando soube que seu livro seria traduzido na Bélgica, e preocupadíssimo quando soube que a tradutora do livro iria procurá-lo. Como, procurá-lo? Ela viria ao Brasil, era isso? Quando? Por quê? A partir do dia em que se confirmou que a tradutora iria procurá-lo, o escritor não falou em outra coisa. Dizia aos amigos que não conseguia dormir, pensando na chegada da belga.

- O que essa mulher quer comigo?

E por que vir ao Brasil? Se tinha alguma dúvida sobre o livro, por que não usar o e-mail? Ela usara o e-mail para anunciar que viria. Por que não usar para dizer o que queria?

Aos poucos, o escritor foi ficando com raiva. Da tradutora belga, da editora belga, do seu próprio livro. Pra que traduzir aquilo? Era um romancezinho de nada. No Brasil ninguém lera. E ninguém conhecia a tal editora. Por que não o deixavam em paz?

flor

Os amigos argumentavam que era uma boa, ser traduzido. Ele passaria a ser conhecido internacionalmente.

- Eu não quero ser conhecido!

E que língua se falava na Bélgica, afinal?

- Francês.

- Espera aí, francês é no sul. No norte é uma espécie de holandês.

Aquilo só aumentou a irritação do escritor. Ele não sabia nem em que língua seria traduzido. Francês ou uma espécie de holandês? Os e-mails da tradutora eram em inglês. Ela se referira ao livro como “your marvelous book” O que seu livro tinha de maravilhoso? Ela não o entendera, era isso. Ela o interpretara erradamente. Vira símbolos onde não havia símbolos. Mensagens cifradas onde não havia nenhuma. E vinha para descobrir o que ele “realmente” queria dizer com seu livro de nada.

Era isso. Olhos nos seus olhos.

A belga vinha para olhar dentro da sua alma. E ele não queria ninguém olhando dentro da sua alma.

flor

O escritor pensou em mandar um e-mail dizendo: “Epidemia de malária. Estou de cama, sem poder receber ninguém. Não venha”. Mas desistiu. E resolveu apelar para o seu amigo Romualdo. O Romualdo era dentista e, ao contrário dele, tinha pinta de intelectual. Usava cachecol no inverno e no verão. Fumava cachimbo. Receberia a belga como se fosse o escritor. Desnudaria a sua alma para a belga. E concordaria com todas as suas interpretações.

flor

Romualdo topou. Só pediu que o escritor fizesse um rápido resumo do livro, que ele não lera. “Viu só?” disse o escritor. “Ninguém leu”. Romualdo e a belga encontraram-se durante uma semana. No apartamento dele, onde a belga estranhou a ausência de livros. “Não leio nada”, explicou Romualdo, no pouco inglês que o cachimbo deixava passar “para não ser mal influenciado”. Quando voltou para casa, a belga mandou um e-mail dizendo que adquirira uma perspectiva completamente nova do livro depois de conversar com o autor, principalmente das alusões dentárias, que ela não pegara na primeira leitura. Até hoje o Romualdo se recusa a contar ao escritor o que disse para a tradutora, e o escritor só saberá o resultado da conversa dos dois quando ler a tradução belga. Se não for numa espécie de holandês, claro.


Domingo, 26 de junho de 2011.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.